terça-feira, agosto 25, 2009

Uma História

Esta história me foi contada algum tempo atrás por uma pessoa muito querida, que por sua vez a ouviu de outra pessoa, que ouviu de outra, e de outra, e de outra, desde o início dos tempos, quando o mundo era muito diferente do que é agora. Neste mundo, mais puro, vivia um caçador. Na verdade ele não era um caçador, era um homem que morava sozinho numa casa de madeira no meio de um bosque e que, por isso, precisava caçar para comer, o que faz dele um caçador para nossos limitados olhos, mas ele também era um pescador, um lenhador, um plantador, um marceneiro.

E talvez seja agora chamado de caçador porque no dia específico que esta história começa (e é história mesmo, porque a primeira pessoa que a contou jura que é real, e esta afirmação continua a segui-la boca após boca) o homem estava com uma velha espingarda, velha para nós, mas nova para aquela época, procurando algum animal para abater e, depois, comer. Mas o dia não estava bom, e após vagar por cerca de duas horas, cansado, sentou-se por alguns instantes em uma pedra na beira de um riacho, para recuperar o fôlego. E foi neste momento que ele viu uma das mais belas criaturas que já tinha visto naquele bosque, uma pequena e delicada borboleta azul.

Já vira milhares de borboletas por aquele lugar, tantas que as ignorava, mas aquela era diferente, por algum motivo. E ficou a observá-la, ao longe, enquanto a mesma dançava no ar, em um espetáculo mágico. Ela se aproximava dele, voava na altura dos seus olhos e se afastava, fez isto algumas vezes e desapareceu.

O homem então se levantou, e ainda maravilhado pela pequena criatura, retomou a busca pela caça. Alguns dias depois, passando pelo mesmo local, viu a mesma borboleta, no mesmo balé aéreo, sozinha, como se fosse a imperadora suprema dos céus. O homem chegou mais perto dela e, instintivamente, estendeu o braço para que lá ela pousasse

A borboleta se aproximou, voou perto, até que, simplesmente pousou em seu braço, na altura do pulso. Ele a aproximou dos seus olhos, e pode notar com precisão seus detalhes. Ela era pequena, pequena mesmo para uma borboleta, tinha um corpo esguio e um par de asas extremamente delicadas, mas com um tom de azul e com detalhes os quais ele nunca havia presenciado antes. Porém, passados alguns momentos, a borboleta decolou rumo ao nada e sumiu.

Tal situação se deu mais algumas vezes, e a cada vez a borboleta ficava mais tempo pousada nas mãos do homem. Até que um dia ele resolveu que iria levá-la para casa pois, apesar de pequena e delicada, estava maravilhado por ela, e não queria mais apenas vê-la esporadicamente. Levantou-se e dizendo para ela não se preocupar, começou a andar em direção à sua cabana.

A borboleta parecia tê-lo entendido pois, até entrar em sua cabana, ficou imóvel para, lá, voar novamente, dentro da pequena morada. O homem estava encantado com tão linda criatura perto dele, não podia conter a sua alegria. Só que, algum tempo após, a borboleta pousou no parapeito da janela e, ele teve certeza q ela lhe olhava diretamente nos olhos.

Percebeu então que não poderia ter a borboleta. Estava claro em seus pequenos olhos, como se ela conversasse com ele (ele juraria após que a borboleta realmente conversou com ele, de alguma forma que não sabe explicar como) e o explicou que não poderia viver ali. Ela lhe disse que também estava encantada com a forma como ele a tratava, mas ela não poderia viver ali naquele momento. E voou.

O homem ficou muito chateado, magoado até, mas percebeu que seria o melhor naquele instante. Ele estava apaixonado pela borboleta, só que a entendia. Por outro lado a borboleta deixara aquele local com extremo pesar, mas tinha certeza que sempre encontraria lá, naquela pequena cabana, um porto seguro, um local onde ela poderia pousar e descansar, sem correr perigo algum.

Diz a história que a borboleta voltou algumas vezes para lá e, ela e o homem conversavam daquela forma que só eles sabiam como era. Só que, quem me contou a história não soube me dizer se algum dia a borboleta voltou para o homem, para a cabana. Se esta parte foi contada, se perdeu em algum lugar no tempo e no espaço, deixando este final não contado.

Então, só nos resta imaginar o final, cada um a sua maneira. Eu, pessoalmente, acredito que, um dia a borboleta voltou. Mas não sei, acho que sou apenas uma pessoa sentimental e que acredita em finais felizes, será que existe espaço para isto no mundo de hoje?

4 comentários:

Jornalistazinha disse...

Existe sim... Mas às vezes a gente cansa de esperar a borboleta voltar...

Alê Marucci disse...

Baby, parabéns! Texto lindo, delicado e emocionante.
Beijo.

Lóh disse...

Se existe quem escreva sobre(e com) sentimento e tem quem leia, então há espaço pra quem acredita em finais felizes.Todo mundo acredita e deseja, mas só os mais corajosos escrevem sobre.

Dani Valente disse...

Acho que é por existir espaço pra coisas assim... que histórias desse tipo são perpetuadas... Buscamos como seres humanos diariamente nossos finais felizes, cada um a sua maneira.
Lindo texto!!

Beijos!